Modern Masters 2015

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

06 de Maio de 2015 | Por Alexander O. Smith

A Missão do Dragão

Há muito tempo, no plano de Kamigawa, um goblin chamado Kiki-Jiki encontra-se em uma situação difícil...

Esta história foi originalmente publicada em 2004 como uma das vinhetas das lendas do bloco de Kamigawa.

***

"Você me causou muitos problemas, criatura." Meloku andava em círculos pela câmara arejada, seus pés traçando os redemoinhos de jade esfumaçado que se espalhavam pelo chão de mármore. Massageava as têmporas com dedos longos e delicados. Como embaixador dos soratami, presidira muitos interrogatórios — afinal, era necessária informação para tomar decisões fundamentadas — mas poucos deles foram tão... irritantes. Ele esperava pouco mais desses habitantes da terra do que roubo e outros crimes menores, mas ali, em seus próprios aposentos! A insolência era mais que uma afronta pessoal; era um desdém para com todo o povo do céu, um morder de dedos para a pálida glória da lua, um insulto, um ultraje...

Meloku, o Espelho Nublado | Arte de Scott M. Fischer

Meloku suspirou e olhou para seu prisioneiro, que pendia no meio da câmara, pendurado na ponta de um longo pináculo invertido que se projetava como uma estalactite de mármore branco do teto abobadado. Uma corda prateada unia o pináculo ao prisioneiro — a única coisa que o sustentava. Três metros abaixo, havia um buraco perfeitamente circular no meio do chão. Abaixo disso, nada além de nuvens ralas e uma queda de seiscentos metros através do espaço vazio até as ondas do oceano muito, muito abaixo. Ele agitou um pouco os braços e imediatamente começou a girar em um círculo lento. Embora ao lado de Meloku ele chegasse apenas à cintura do soratami, o akki era grande para sua raça, e aquela corda parecia fina demais para segurá-lo por muito tempo. Ele imediatamente se arrependeu de ter comido todos aqueles biwas maduros da árvore no pátio ao entrar. Pareciam tão bons, tão doces e dourados. Ora, ele conseguia ouvi-los chamando por ele... Uma gota de suor formou-se entre as placas estriadas de sua fronte e escorreu por entre seus olhos até a ponta de seu nariz pontudo, onde ficou pendurada pendularmente pelo que pareceu uma eternidade antes de cair, cair através do buraco no chão, onde foi varrida para o nada pelos ventos fortes que sopravam sob o palácio das nuvens. O akki engoliu em seco.

Meloku parou de circular e ergueu uma sobrancelha. "Você sabe, existem outras maneiras de persuadi-lo a falar." Retirou uma adaga delgada de seu cinto e observou a corda acima da cabeça do akki. "Ainda assim, pensei em lhe dar uma última chance de ser civilizado, Kiki-Jiki." O akki tencionou. "Sim, eu sei quem você é", disse Meloku, sorrindo, "meus espelhos mostram muitas, muitas coisas... embora admita que me causou muita dor física ter que observar seus irmãos imundos rolando e batendo na cabeça uns dos outros com pedras, mesmo de longe." Meloku balançou a cabeça e começou a andar novamente.

"Você é Kiki-Jiki, um jovem macho akki, como suponho que se considere. Nasceu como o quarto filho de sua família, expulso quando usou sua irmã em vez de uma pedra para praticar arremessos nos campos de lava, e ensinou seus irmãos mais velhos, porém marginalmente mais estúpidos, a jogar 'provoque o oni'. Você sobreviveu a essas escapadas e à ira de sua família extensa por virtude de ser um bom corredor... mas em lugar nenhum dos meus espelhos vejo algo que mostre onde em Kamigawa você escondeu aquela minha pérola, muito menos algo que explique como você conseguiu se esgueirar em um palácio das nuvens sem nenhum meio visível de transporte!" Meloku respirou fundo e olhou para cima, os lábios finos curvando-se num sorriso frio. "Agora diga-me, pois desejo muito saber, como é que um akki pode voar?"

***

Que dia. Kiki-Jiki tirou uma meleca marrom-avermelhada da narina esquerda e a atirou em um arbusto de jasmim raquítico que crescera em uma fenda nas rochas da face do penhasco. Franziu a testa quando o arbusto se arrancou, sacudiu suas folhas para ele em fúria vegetativa e saiu correndo. Algo estava errado ali, e ele sabia exatamente o que era; só não conseguia lembrar da palavra para aquilo. Era aquela coisa onde coisas estranhas acontecem sem nenhum motivo aparente, e há sempre um mago ou algum kami desagradável envolvido. Ma... algo. Kiki-Jiki coçou a cabeça e olhou feio para o caminho quente e arenoso sob seus pés. Que sorte a minha — outro beco sem saída. Passara a maior parte da manhã vasculhando aquelas rochas em busca daquela gruta maldita que vira da crista distante no dia anterior. Vira o arco da caverna, o brilho do sol da tarde na piscina em seu interior. Ach, era enlouquecedor! Conseguia praticamente sentir o cheiro dos peixes e dos sapos cegos e albinos de caverna... pelas vesículas biliares bulbosas do Patrono, conseguia até ouvir o gotejar da água. Mas onde? Por toda parte que olhava havia rocha seca, castigada pelo sol.

Comida.

A última coisa que comera fora o pedaço de pão-de-verme de um mês de idade que Paku-Paku atirara nele quando fugira das cavernas. Fora um bom tiro. Teria rachado o crânio dele se não o tivesse bloqueado com aquela ave-da-lama que roubara. Estivera esperando conseguir alguns ovos daquela coisa raquítica, mas depois do incidente do pão, ela ficou mole como uma lesma de caverna, e naquela noite, quando buscou abrigo em uma velha carcaça de árvore atingida por um raio, a penou e descobriu que era majoritariamente osso de qualquer forma. Então, comeu o pão-de-verme velho e perdeu um de seus dentes bons no processo. Agora estava faminto. Kiki-Jiki abriu caminho pelas rochas em direção a onde pensava que conseguia ouvir o rio, seu estômago roncando e sua cabeça cheia de pensamentos de... não, na verdade estava bem vazia também. O estômago mandava em tudo agora.

Chegara a um tipo de lugar plano. Varreu o solo com os olhos, que dardejavam de um lado para outro, procurando por insetos, lagartos, ossos, qualquer coisa... e deparou-se com uma mancha verde na sombra de algumas rochas a poucos passos dali. Correu e cutucou as ervas daninhas para ter certeza de que não eram hostis, depois esticou a mão... e ouviu água! Rapidamente, pressionou uma orelha pontuda contra o chão. Sim! Estava ali embaixo, sob as rochas! Oh, que astuto — era um rio subterrâneo! Imediatamente começou a cavar o chão com as garras. Suas mãos foram feitas para cavoucar, e a terra ao redor das rochas estava seca e quebradiça. Em pouco tempo, tinha um buraco respeitável, quase grande o suficiente para ele rastejar para dentro. Logo estaria banqueteando-se com peixes e caracóis e lesmas! Kiki-Jiki levantou-se de seu trabalho e soltou um grito de vitória, sacudindo seus punhos sujos em desafio ao céu... quando o solo sob ele colapsou e ele tombou pelo espaço e mergulhou de cabeça em água escura e impetuosa.

Pequeno peixe-com-pernas escamoso, procurando com garras ávidas em águas famintas por luz. Volte, peixinho. Você não é o único que tem fome.

Kiki-Jiki, Estilhaçador de Espelhos | Arte de Steven Belledin

Kiki-Jiki abriu os olhos e avaliou sua situação. Estava em um lugar muito escuro, majoritariamente seco — ah, uma caverna — o que era bom, e havia um peixe grande pego esperneando sob a borda de seu casco. Este poderia ser esmagado em uma rocha e comido, o que também era bom. No entanto, tinha uma suspeita profunda de que o único caminho para fora dali era o caminho por onde viera, e aquilo era ruim. Conseguia sentir o borrifo gelado vindo do rio subterrâneo horrivelmente frio que corria através de uma fenda na parede a menos de um braço de distância dele, apenas para desaparecer por outra fissura mais adiante na caverna. Sim, o rio o trouxera ali, ou assim ele tinha que presumir pela sua umidade geral e pelo peixe; pois descobriu que não conseguia lembrar de nada muito claramente sobre os últimos cinco minutos. Estivera cavando — lembrava-se disso. E então houve uns pedaços de queda, e uns pedaços de debate-se, e depois muitos pedaços de frio e escuro e molhado, e então... uma voz.

Espirrou e estremeceu. Alguém, ou algo, estivera falando com ele! Olhou ao redor da caverna. Seus olhos grandes haviam se ajustado o suficiente para ver um pouco de luz ambiente vinda de algum musgo no teto, mas até onde conseguia dizer não havia mais ninguém espreitando nas sombras. Olhou para baixo, para os olhos sem pálpebras da presa em sua mão. Um peixe — a voz o chamara de peixe. Bem, quem quer que fosse, era bem estúpido confundir um akki com um peixe. A maioria dos akki não conseguia nadar para salvar a própria vida. Kapi-Chapi se saíra bem naquele fluxo de lava, claro, mas não era como se ela tivesse realmente conseguido, e além disso, a forma dela fora atroz. Kiki-Jiki riu com a memória e abocanhou a cabeça do peixe. De jeito nenhum voltaria para aquela água, mas se ia morrer ali, ao menos não morreria com fome!

***

O estômago de Kiki-Jiki roncou. Andara de um lado para outro por horas e vasculhara completamente sua prisão cinco vezes. Sua única descoberta fora que estivera errado sobre possíveis saídas. No lado da caverna mais distante do rio de águas negras, onde as sombras eram mais densas, havia um lugar onde o chão abruptamente dava lugar a um abismo que se estendia por cerca de quatro vezes sua própria altura até a parede distante da caverna. Era ali que ele agora se sentava. Balançando as pernas sobre a borda, cansara-se rapidamente do jogo "Sou um seixo, ouça-me gritar enquanto despenco para a morte" que tanto o entretivera quando criança... e bem na puberdade... e, na verdade, até agora. Mas não importava, os seixos haviam acabado. A única coisa que lhe restava para jogar era a cauda dura e espinhosa do peixe que pegara em seu casco, e esta ele estivera guardando como um último petisco antes que a escuridão o levasse. Que se dane o esperar, pensou enquanto segurava a cauda e abria a boca — quando uma rajada de vento soprou inesperadamente do abismo e arrancou a cauda direto de sua mão.

Kiki-Jiki gritou em consternação enquanto a cauda flutuava na rajada de vento, depois girava e começava a cair no abismo. Seu instinto era lançar-se atrás daquela coisa, pois por mais ossuda e espinhosa que pudesse ser, era tudo o que tinha — mas ele se conteve. Ninguém em seu juízo perfeito pularia em um abismo escancarado apenas para agarrar uma cauda de peixe mixuruca! Então uma força poderosa o agarrou com toda a força e fúria de um parente idoso tentando estrangulá-lo por algum insulto imaginário — era o estômago, e o estômago devia ser obedecido. Kiki-Jiki sorriu e lançou-se no espaço. Comeria aquela cauda se fosse a última coisa que fizesse. E ocorreu-lhe, enquanto despencava na escuridão, que provavelmente seria.

Peixe astuto, para encontrar meu covil tão prontamente. Peixe tolo, pois agora você deve morrer.

Kiki-Jiki empertigou-se. Algo estava muito errado, e ele tinha uma suspeita bem grande de que era mais daquela ma... algo em ação. Primeiro, não esperara pousar tão cedo após pular, especialmente porque, pelo que conseguia dizer, estava pousando no ar puro — ar que parecia tão duro quanto o casco do ancião da tribo, e doía quase tanto quanto ser sentado por tal ancião (uma punição que sofrera muitas vezes por suas várias escapadas). Mais estranho ainda, vira a si mesmo continuar caindo no abismo abaixo. Uma maldita pena, estava prestes a pegar aquela cauda de peixe também, quando se viu sumir de vista.

Abra seus olhos, peixinho. Veja aquele que o encerrará. Veja-me.

Espelho do Anel Lunar | Arte de Christopher Rush

Kiki-Jiki arquejou. Não estava mais sobre o nada. Estava no exato centro de outra caverna, um pouco maior que a primeira e mais ou menos circular. Não conseguia ver o teto ali, e havia algo estranho nas paredes. Pareciam ser feitas de painéis azulados e cintilantes, cada um tão grande quanto ele e encaixados perfeitamente uns contra os outros. Devia haver cinquenta deles. E em frente a cada painel... espere. Não estava sozinho. Ali, na frente de cada painel, estavam criaturas horríveis e deformadas. Girou bruscamente e sim, estavam paradas ao longo da parede atrás dele também! Encaravam-no com olhos injetados de sangue espiando de ambos os lados de narizes horríveis e pontudos. Oh, eram feios! Kiki-Jiki caiu de joelhos e ergueu as mãos para mostrar que estava desarmado e, como um só, as coisas vis caíram ao chão e ergueram as mãos numa zombaria à sua rendição! Eles o comeriam com certeza, eram malvados, eram vis, eram... akki? Kiki-Jiki coçou a cabeça. Os cinquenta akki coçaram as deles. Ele ficou em uma perna só e saltou em círculo; os cinquenta imitaram cada movimento dele. Espelhos! Estava em uma sala cheia de espelhos!

Ouvira dizer que existiam pessoas em Kamigawa que inventaram uma maneira de congelar a superfície da água e colocá-la em uma parede, e chamavam o resultado de "espelho", mas esta era a primeira vez que via a coisa real. Fez menção de correr e inspecionar um de perto, mas então captou um brilho no chão. A cauda de peixe! Oh, sua sorte estava tomando um rumo definitivamente melhor. Rapidamente pegou a cauda e abriu a boca —

Você pode me ver, peixinho?

Kiki-Jiki deixou cair a cauda e mordeu a língua. A voz, como pudera esquecer a voz? Em toda a sala os painéis-espelho começaram a deslizar, e agora uma fresta estava se abrindo na parede. E ali, da escuridão por trás da parede, surgiu uma cabeça reptiliana gigante e azul. As pernas de Kiki-Jiki tremeram e cederam sob ele. O fundo de seu casco bateu no chão duro. Lágrimas encheram seus olhos ao ver a cabeça aproximar-se, e os painéis mudando e dobrando-se, caindo em posição em uma fileira atrás dela. Pela cauda chamuscada por lava do Patrono! Aquilo não eram espelhos, eram... eram... escamas.

Aqui estou eu.

Um ryu — um grande dragão. Sua voz ecoava dentro do crânio de Kiki-Jiki. Oh, e ele era grande, imenso, enorme. Era provavelmente velho também e, se Kiki-Jiki sabia algo sobre anciãos, eram ranzinzas.

Sou mais velho que o próprio tempo, peixe amedrontado. As vidas da sua espécie são como um breve mudar na correnteza para mim. Vi os anéis crescerem nas grandes ostras das profundezas e vi suas conchas decaírem até virarem areia. Minhas escamas são mais brilhantes que qualquer diamante na terra, e minha ira queima mais que qualquer fogo das montanhas. E estou zangado, peixe-com-pernas, muito zangado, pois algo querido para mim foi roubado.

A vida de Kiki-Jiki passou diante de seus olhos. Seus irmãos e irmãs na caverna natal, atingindo-o com pedras. Seu pai enxotando-os; depois sorrindo e atingindo-o com uma pedra maior. Sua mãe acenando para ele ao seu lado; depois acertando-o na cabeça com uma pedra particularmente grande e pontuda. Freneticamente, buscou por uma boa memória, algo com comida ao menos. Mas acabou rápido demais. Estava feito. Era o fim. Encolheu-se diante do ryu e, choroso, enfiou a cauda de peixe na boca. Os ossos prenderam-se em sua boca e ele começou a ganir e tossir, baixinho. Podia sentir o fôlego do grande lagarto lavá-lo como uma onda gigante. Tinha cheiro de peixe morto. Os olhos de Kiki-Jiki reviraram e ele bateu no chão, desmaiado.

Escuridão...

Pequeno peixe-com-casco... peixinho...

Aquela voz! Se apenas ela o deixasse em paz. Deixasse-o morrer com alguma dignidade. Tudo bem, isso poderia ser pedir demais, mas ao menos poderia ter um pouco de privacidade antes do fim.

Você foi astuto ao encontrar meu covil, muito astuto. Talvez eu tenha um uso para você...

***

O sol brilhava. Nuvens brancas passavam velozes. E pássaros... havia pássaros voando contra o céu azul. Kiki-Jiki estava em um barco, balançando em um oceano. Tão calmo, tão pacífico. Sem caverna, sem escamas-espelho, sem voz em sua cabeça. Ele sorriu. Sentiu o barco subir no balanço de uma onda e uma nuvem branca fofinha flutuou perto. Tão macia, tão boa. "Olá nuvem..." A nuvem disparou para baixo e passou sob ele. Pelo Casco-duro Antigo! Não estava em nenhum barco! Estava voando! Olhou para baixo e viu seu rosto olhando de volta de uma escama azul brilhante como um espelho. Estava cavalgando nas costas do ryu! Lembrava agora — a voz dizendo que precisava dele para recuperar algo que fora roubado, uma pérola de grande valor, guardada em um palácio flutuante no céu...

Carruagem das Nuvens Soratami | Arte de Franz Vohwinkel

Então Kiki-Jiki olhou para cima e viu, surgindo na distância: um palácio incrível que parecia crescer das nuvens. Seus pináculos eram deslumbrantes sob o sol. Conseguia ver grandes arcos e pátios, e aqui e ali veículos que pareciam carruagens deslizavam nas correntes de vento, de um lado para outro entre o palácio principal e nuvens periféricas com torres e pagodes menores. Aqueles eram os salões dos soratami, o povo da lua, uma raça alta e fria que flutuava no ar e pouco se importava com as pessoas no chão, e menos de tudo com os akki. Ouvira histórias sobre Zo-Zu, o Punidor, liderando os mais bravos dos akki em práticas de atirar pedras perto de onde as carruagens soratami costumavam voar. E nos restos carbonizados vira os resultados de sua poderosa ma... ma...

Magia.

"Magia!", o Kiki-Jiki gritou acima do vento impetuoso. Aquela era a palavra! Deu uma risadinha de deleite e quase escorregou das costas do ryu, mas a grande fera serpenteou no ar, equilibrando seu cavaleiro. "Mas espere — se os soratami têm magia, não vão nos ver chegando?"

Verão uma nuvem de movimento rápido, nada mais, peixinho. Os soratami são sábios e cautelosos, mas não são donos dos céus. Existem muitos aqui muito mais velhos que eles.

O ryu desviou para a esquerda ao redor de uma nuvem cúmulo-nimbo escura.

Aquela nuvem ali, aquilo é um raijin, um kami do trovão. Ai da carruagem soratami que passar sob seu véu tempestuoso.

"Tudo bem", disse Kiki-Jiki, engolindo em seco. "Mas e quando você me deixar no palácio, e depois?" Mas o antigo ryu apenas sorriu. Suas escamas brilhavam com a luz refletida de minaretes reluzentes e arcobotantes curvos e delgados. Haviam chegado.

***

Kiki-Jiki devorou seu quinto biwa da árvore frutífera pesadamente carregada no pátio externo e contemplou seu próximo passo. O que havia com esses soratami e seus salões escancarados? Esperara que o interior do palácio tivesse alguma medida de conforto, um pouco de rocha bruta, algum musgo de caverna, talvez. Mas todo esse vidro e mármore era francamente inquietante, e as câmaras vastas não eram boas para se esgueirar. Esquivou-se por uma passagem, os pés fazendo pitter-pat sobre nuvens pintadas no chão de lajes frias. Devia estar perto dos aposentos do embaixador de que o ryu falara. Então, vozes dobrando a esquina, vindo em sua direção. Kiki-Jiki buscou refúgio atrás de uma grande escultura de jade do que parecia ser uma boca gigante com asas.

"...então o habitante da terra doguso diz para mim 'os kami tiram tudo de nós, tudo! Quando tirarem a própria terra de nós, onde ficaremos de pé!' e eu digo a ele 'Um problema preocupante, com certeza'."

Kiki-Jiki ouviu uma voz falando, seguida por uma risada fria enquanto dois soratami saíam flutuando de um portal próximo e passavam pelo seu esconderijo. Eram altos e esguios, e vestiam longas túnicas índigo inscritas com símbolos estranhos em laço e fios dourados cintilantes. Um deles tinha punhos vermelhos largos na túnica e parecia que os padrões em suas vestes de quimono giravam e mudavam conforme ele se movia. Aquele deve ser o embaixador. Kiki-Jiki esperou que desaparecessem em um dos corredores atrás dele antes de escorregar ao redor da estátua estranha e atravessar o portal.

Enviado de Oboro | Arte de Rob Alexander

Entrara em uma sala muito mais ricamente decorada do que qualquer uma que vira desde que chegara ao palácio. Pilares de jade verde brilhante erguiam-se pela câmara, contrastando agradavelmente com os brancos e cinzas rodopiantes das paredes de mármore. Em nichos de ambos os lados da sala ficavam candelabros elegantes esculpidos em osso branco. Estavam vazios, mas projetavam luz bruxuleante de chamas que flutuavam alguns centímetros acima de onde cada vela deveria estar. Na parede distante, no centro de uma tapeçaria espessa com brocado dourado forrando uma lua gigante tecida parecia flutuar acima do tecido, projetando sua própria luz pálida na metade posterior da sala. Pareceu a Kiki-Jiki que a sombra na lua movia-se mesmo enquanto ele observava. Mais magia. Seus olhos desceram pela seda, ainda mais para baixo abaixo dos borlas prateadas que formavam o horizonte sobre o qual a lua nascia e ali, banhada pela luz lunar tênue da tapeçaria, estava uma grande pérola em um pedestal de ferro. A pérola do ryu.

As palmas de Kiki-Jiki cerraram-se, e ele hesitou por um momento. E se fosse uma armadilha? E se os soratami tivessem lançado algum feitiço horrível de transformação naquela pérola, e quando ele a agarrasse fosse transformado em algo... algo pior que um akki! E se toda essa missão for um truque montado pela minha família para me dar uma lição? Não, a maioria de seus parentes não seria capaz de controlar as entranhas se visse um ryu de verdade, quanto mais convencer um a ajudar com algum trote elaborado. Kiki-Jiki sorriu, imaginando seus tios e tias fugindo em debandada de seu novo amigo. Deu uma última mordida no biwa e jogou o caroço sobre um belo sofá de seda. Ele rolou para o chão, deixando um rastro vagamente alaranjado de limo no estofamento. Limpando as mãos, Kiki-Jiki marchou até o pedestal e, agarrando a pérola — que agora descobria ser quase tão grande quanto sua cabeça e muito, muito mais pesada — virou-se para partir. Então ele congelou.

Estava sendo observado. Pelo canto do olho conseguia ver alguém parado no nicho mais próximo, atrás do candelabro. Kiki-Jiki sentiu o peso da pérola em suas mãos. O ryu não especificara que a pérola tinha que estar em qualquer condição particular e, se Kiki-Jiki sabia de uma coisa, era como atirar objetos grandes nas pessoas. Num movimento suave, ele girou e ergueu a pérola com ambas as mãos acima da cabeça — e a figura no nicho fez exatamente a mesma coisa. Outro espelho! Quase riu alto. Pérola enfiada de volta sob o braço, ele caminhou até o nicho e empurrou o candelabro para o lado. Agora aquilo sim era um espelho de verdade: um oval perfeitamente límpido de vidro reflexivo preso em uma moldura de ouro, decorada com minúsculas safiras e rubis. Posto naquela moldura, o reflexo de Kiki-Jiki parecia muito bom. Seu nariz ossudo era imponente, seus olhos brilhavam azuis e intensos, seus braços eram longos e... vazios?

Kiki-Jiki olhou para a pérola. Sim, ali estava ela, enfiada sob seu braço direito, pesada como um irmão inconsciente. Olhou para o espelho. Seu reflexo tinha o braço dobrado de uma forma estranha, mas não havia nenhuma pérola! Pousou a pérola no chão e olhou de volta para cima. Seu reflexo encontrou seu olhar. Coçou o queixo. Seu reflexo coçou o dele. Sorriu e seu reflexo retribuiu o sorriso, então ele mostrou a língua e soltou um som de deboche ruidoso! Por um segundo, Kiki-Jiki pensou que ele fizera aquilo — certamente não seria a primeira vez que sua boca faria algo sem sua permissão — mas olhou para baixo e com certeza sua língua estava firmemente onde deveria estar, escondida atrás dos dentes. Olhou para cima. Agora seu reflexo estava acenando o dedo para ele! Reflexo atrevido! Acha que é tão esperto? Furioso, Kiki-Jiki esticou a mão e pegou a pérola. Lentamente, ergueu a pérola acima da cabeça e sorriu para seu reflexo. O rosto de seu reflexo obscureceu e ele ergueu as mãos sobre o rosto. Parecia estar gritando algo, mas Kiki-Jiki não ouvia as palavras. "Quem está se divertindo agora?" disse Kiki-Jiki enquanto batia a pérola contra o rosto de seu reflexo.

Houve um tremendo som de estilhaçamento. A pérola ricocheteou no espelho e lançou Kiki-Jiki de volta sobre seu casco no meio da sala. Girou, tentando desesperadamente evitar que a pérola caísse no chão de mármore e rachasse ou pior: fizesse mais barulho. Olhou para cima para avaliar o dano e ali, parado em frente ao nicho, limpando cacos de vidro de espelho, estava seu reflexo! "Quem é você?", perguntou Kiki-Jiki.

"Eu sou o Kiki-Jiki!", seu reflexo respondeu.

"Não, eu sou o Kiki-Jiki!"

Do corredor lá fora, ouviram vozes — soratami, vindo ver o que era a comoção, sem dúvida. Kiki-Jiki olhou fixamente para seu reflexo. "Escute", disse ele em um sussurro alto sobre o tilintar que o restante do espelho fazia conforme os últimos cacos caíam no chão. "Não gosto da sua cara, mas se não cooperarmos, vamos ambos fritar como aves-da-lama num poço de lava." Seu reflexo assentiu. "Por aqui", disse Kiki-Jiki e, carregando a pérola sob o braço, dirigiu-se à porta da câmara, com seu reflexo logo atrás.

Tiveram sorte. O embaixador soratami ainda não voltara para a entrada. Os dois Kiki-Jikis viraram bruscamente à esquerda e saíram num amplo pátio. Kiki-Jiki parou e virou-se para o seu reflexo. "Olha, tenho que voltar para o ryu."

"Eu também!", disse seu reflexo.

Kiki-Jiki pensou rápido, o que fora a primeira vez para ele, e algo como um milagre, mas ele teria que se parabenizar no casco mais tarde. Havia trabalho a ser feito. "Hã, olha — vamos nos separar. Vou para a esquerda até aquele pináculo ali, e você vai para a direita, através daquele pátio ali. Depois nos encontramos atrás do palácio no ryu. Dá uma chance melhor para nós!"

Seu reflexo franziu a testa desconfiado.

Maldição.

Kiki-Jiki tentou uma tática diferente. "Ei, pega mais alguns daqueles biwa no caminho, ok?"

Seu reflexo sorriu. Mesmo rosto, mesmo estômago, aparentemente. Kiki-Jiki estremeceu enquanto seu reflexo saía correndo pelo pátio. Teria ele sido enganado tão facilmente? Aquilo era algo em que ele teria que trabalhar. Virou-se e correu direto de volta para o pequeno pagode onde o ryu prometera buscá-lo. O sol estava quente em seu casco e, de alguma forma, a pérola não parecia mais tão pesada.

***

O ryu voava rápido através de uma fileira de nuvens fofas, desviando-se vez ou outra para evitar bandos de mariposas gigantes de voo alto que se dispersavam como pedaços de papel no rastro do ryu. A pérola, presa em suas mandíbulas maciças, brilhava suavemente na luz carmesim do pôr do sol. Em suas costas, Kiki-Jiki sentava-se num raro momento de contemplação. Então empertigou-se e gritou acima do vento uivante. "O que você acha que aconteceu com o meu reflexo?"

Ele é o prisioneiro do embaixador soratami agora.

"Oh", disse Kiki-Jiki franzindo a testa. "Sinto-me meio mal de deixá-lo para trás. Digo, família é uma coisa, mas ele é... eu!"

Não se preocupe, bravo peixinho. Os reflexos da sua espécie são ainda mais efêmeros do que você. Ele não ficará preso por muito tempo. Seja feliz, peixe-com-chifres, grande estilhaçador de espelhos. Você se saiu bem.

Kiki-Jiki não tinha certeza do que "efêmero" significava, mas soava como algum tipo de magia que ajudaria seu reflexo a escapar, e aquilo era bom. Suspirou de alívio e olhou para o chão lá embaixo. Ali estava a crista que escalara no dia anterior e, além dela, as montanhas de onde viera... onde sua família vivia. Kiki-Jiki bateu no próprio casco. Deveria ter feito mais reflexos! O pensamento de dúzias de si mesmo correndo desenfreados pelas cavernas fazia seu corpo vibrar de deleite. Conseguia quase ver seu pai, de boca aberta em espanto horrorizado, soterrado sob um enxame de Kiki-Jikis! Gritou acima do vento: "Deveria ter pegado mais daqueles espelhos!"

O que um espelho pode lhe dar além do que você lhe mostra? A magia era sua, peixe astuto.

"Espere", Kiki-Jiki berrou, coçando entre as placas ósseas da fronte. "Você quer dizer que posso fazer mais reflexos, sempre que quiser? Não preciso daqueles espelhos?" O ryu nada disse, mas ele pensou ter sentido uma vibração estranha através das grandes escamas azuis. Um estrondo, como... riso! O ryu estava rindo! Num ímpeto de movimento, giraram ao redor de uma nuvem e dispararam através do ar em direção às colinas abaixo.

Keiga, a Estrela da Maré | Arte de Ittoku

O ryu prometera levá-lo a um pomar abandonado que ele conhecia, com muitas árvores frutíferas carregadas e caracóis gordos para quem quisesse pegar. Haveria uma piscina de água ali também, pensou Kiki-Jiki — um lugar onde ele poderia testar seus novos talentos. Kiki-Jiki sorriu. Hoje estava se tornando um dia muito bom, afinal.

***

No alto do palácio das nuvens acima deles, Meloku pausou sua caminhada. Fixando o prisioneiro em seu olhar de aço, sorriu. "Eu verdadeiramente esperava que não chegasse a este ponto, pois não aprecio o barbarismo, mas você não me deixa escolha. Vamos cortá-lo e testemunhar este milagre do voo akki pessoalmente!" Pendurado na corda prateada, o akki guinchava e debatia-se, o que o fazia balançar lentamente de um lado para outro, o que o fazia guinchar ainda mais alto. "Isto não me traz prazer algum, Kiki-Jiki, eu lhe asseguro", disse Meloku, um brilho satisfeito nos olhos enquanto sacava sua adaga e flutuava do chão em direção ao pináculo e seu prisioneiro indefeso. Então ele pausou no ar.

Algo estava errado. O akki não estava mais se contorcendo. Na verdade, ele estava perfeitamente imóvel, congelado no ar. Meloku ergueu uma sobrancelha, depois arquejou conforme o akki estilhaçou-se em mil fragmentos reluzentes que caíram como uma chuva súbita, desaparecendo no Éter antes de atingirem o chão. Tudo o que restara fora um emaranhado de corda, pendurado inutilmente no pináculo do teto. Meloku massageou as têmporas com os dedos longos e delicados. Sim, fora de fato um interrogatório muito irritante.

***

Em uma gruta escondida junto a um rio subterrâneo, o grande ryu azul enrolava-se na escuridão, ao redor da pérola que brilhava fracamente como se tivesse sido aquecida pelos raios do sol na jornada descendo do palácio das nuvens.

Durma, meu filho, e cresça forte. Logo você eclodirá e assumirá seu lugar de direito entre as quedas e as névoas e as estrelas deste mundo. Você comerá as ostras nas profundezas, e o doce orvalho das nuvens, e os peixes que caminham em sua terra. Apenas... vá com calma com os de casco.